segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Uma "Caldeirada" cinco estrelas - Ostras e Aranhas (Parte III)

Vocês não sabem, mas eu sou muito esquisita com a comida, especialmente esquisita com ingredientes desconhecidos no meu prato, com fruta fora da sobremesa e com derivados de lacticínios devidamente processados e cozinhados. Posto isto, qualquer perspectiva de ingerir cozinha de autor ou gastronomia fina cuja nomenclatura é, em si, uma arte oculta para mim, deixou as minhas papilas gustativas e todo o restante trato digestivo em estado de alerta máximo. Ora, foi com este estado de espírito e a sensação de acabar a noite numa qualquer ala hospitalar com que parti para a aventura degustativa em que o Mário nos meteu… 

E agora vou passar ao relato da aventura propriamente dita, que é deveras mais interessante do que as considerações anteriores. Em primeiro lugar, e cumpre estabelecer isto muito bem, e eu sei que não parece, mas a minha pessoa, e a pessoa do Mário também, não temos qualquer genética Amorim ou Balsemão, por isso, nada mais desconfortável do que movimentarmo-nos no lobby do hotel, andar perdidos à procura do restaurante e ainda ter que “fazer sala” no bar enquanto serviram as entradas. Mas adiante que o vem a seguir é melhor. Depois de servidas as entradas, que eram mais propriamente “colheradas” de coisas pequeninas cuja identificação não me foi, de todo, possível, avançámos sem medos para o restaurante L’Olive, obviamente o nome era francês, o chefe era francês e, aposto, a comida era capaz de saber falar francês também. 

Restaurante L'Olive ... reparem na oliveira no meio da sala.

Chamaram-nos pelo nome, como na escola, e escoltaram-nos até à mesa, com as devidas mesuras e instalaram-nos mesmo no meio da sala! No meio, para toda a nossa vergonha fosse melhor apreciada pelos restantes participantes do festim… Instruções que é bom, foi mentira, e a partir dali o orientador da sala (vai passar a ser o título dele, à falta de nome melhor) abandonou-nos e foi o “desenrasca-te” mesmo à tuga e mesmo à pobre. Bem, na verdade não foi bem assim, porque recordando as preciosas lições da anfitriã das boas maneiras (e do mau gosto têxtil) Paula Bobone consegui decifrar para que é que serviam os três copos que cada um tinha, mais os três conjuntos de talheres e as “toalhas” que nos forneceram no lugar dos guardanapos. À primeira vista era uma mesa normal e perfeitamente acessível com entradas, outra vez, de pãezinhos e manteiga, como no restaurante da esquina. Depois vieram umas tiras de pão branco com condimentos que receberam o complemento “olha nice, cheira como as pizzas” por parte do Mário e então é que foi preciso ligar o modo MacGyver.

Os 3 Chefs. Foto do Facebook dos Hotéis Pestana

Os chefes, três deles, coisa requintada, vieram à sala apresentar os pratos (lá está, deviam falar uma língua estrangeira…): Ostra com algas, ali da Ria Formosa, Pêra bêbeda do Oeste com codorniz e para finalizar um Cappuccino do Mar. Três coisas extraordinárias que ou nunca tinha comido ou nem sabia do que se tratavam, que bom… A nossa estratégia começou por esperar que as outras pessoas iniciassem o repasto e depois fazer “copy – paste”, o que teria sido mais fácil se a comida cooperasse. 


Para quem nunca viu, isto é uma ostra!
Ora, as ostras são uns animaizinhos que vêm dentro de uma concha e diz que se comem crus, o que é muito bom para os hipocondríacos, e cito, “mas a apanha disto ali na Ria não teve interdita aí até há uns dias?”… Micróbios e toxinas à parte, o bicho vinha com um spork e deveria ser essa a ferramenta a utilizar no seu consumo. Após uma revisão à sala, concluímos que era para comer inteira e de uma vez, fosse como fosse. O Mário picou a sua e disse “acho que isto ainda está vivo…”, eu piquei a minha e disse “isto parece uma borracha”, mas se morrêssemos ali, ao menos morríamos engasgados com uma comida de gente rica, fina e gira. Foram comidas as ostras numa explosão de sabor a água do mar. Quem diria que as ostras explodem quando são trincadas? Os bivalves que eu conheço não se comportam assim, mas adiante porque ainda havia umas tirinhas de verdura no prato e umas coisas que pareciam decoração de aquário. Obviamente, qualquer pessoa da nossa idade, que cresceu a ver os filmes da Disney, se sentiria que nem uma Ariel – e se vocês não se sentirem assim é porque a vossa infância foi triste e vocês não são pessoas fixes – a apreciar os delicados frutos do mar, que eram, mais uma vez, de consistência gelatinosa, pelo menos as algas que eu comi eram assim. O Mário também comeu as ditas Agar-agar e ainda outras que pareciam uns escovilhões e que eu achava que não eram para comer, mas como ainda não teve nenhuma reacção alérgica é porque não deve ser muito grave. 

Foto roubada à descarada de Lidia Carrondo
O segundo prato da noite era mais convencional, do género tinha ar de não estar vivo e de ter sido cozinhado ao ponto recomendado pela ciência médica. Pêra bêbeda em vinho do Porto – eu não sou fã de fruta no comer e o Mário não é fã de álcool em nada, o que é que poderia correr mal?! Neste ponto, o prato veio sem talheres e, portanto, encomendámos a alma à Santa Bobone e usámos os primeiros talheres. Devo dizer que este item do menu não apresentou quaisquer problemas de maior, tirando a meticulosa tarefa de desossar uma perninha de codorniz sem usar as mãos. Talvez se o conjunto da cutelaria apresentada tivesse uma pinça a tarefa tivesse sido mais fácil, mas afinal de contas, como não houve comida a sair disparada pela falta de jeito, é melhor dar o capítulo por concluído com total sucesso. Neste ponto, o jovem casal da classe média-baixa (?) (baixa-alta?) estava perfeitamente enturmado no meio dos ricos e poderia ter feito um extenso documentário de pesquisa sobre os hábitos desses animais raros e em vias de extinção em Portugal… Quem sabe talvez iniciar uma campanha de reprodução de ricos em cativeiro para fazer a repovoação da classe média e salvar o país da crise, assim numa sinergia eclética entre o Álvaro Santos Pereira e a Assunção Cristas, com pastéis de nata e sem ar condicionado, imitando o habitat e alimentação que ocorrem naturalmente em terras lusas. Adiante, que isso é projecto para muitos milhões e o que ‘tá na moda é reservas de protecção da vida bancária selvagem. 

Foto roubada à descarada de Lidia Carrondo
Finalizarei, porque já estou a ocupar o vosso precioso tempo há tempo demais, com o terceiro e último prato do primeiro round. O mais fantástico e surpreendente mestre do disfarce – o Cappuccino do Mar – que parece um café mas não é! As coisas que as pessoas inventam. Ora, este prato, que não era um prato, era uma chávena veio acompanhado de torradinhas, tipo pequeno-almoço e de um flute (olha mais uma coisa francófona) com espumante, o que não é bom para o fígado se for tomado ao pequeno-almoço e, portanto, essa refeição ficou posta de parte logo aqui. Acontece que o Mário não usa bebidas alcoólicas, mas eu uso e então recebi um copo, mas o meu copo, como todos os outros, tinha um brinde “olha tens uma aranha no copo!” – isto é o meu namorado a ser uma simpatia e a promover um ataque de pânico e parvoíce no momento mais inoportuno, é que eu ADORO aranhas, com aqueles olhos arrepiantes e as patas peludas e… oh criaturas maravilhosas… Ok, não era uma aranha, mas se fosse era melhor não reclamar, porque com aranha o espumante é mais caro, é assim a versão rica e fina das moscas na sopa. Era uma flor de anis (go Google it) e era parecida com um bicho feio e preto de facto, mas perfeitamente aceitável por ser do reino dos vegetais e já vir bastante morta e afogada, acho eu. Mas voltando às substâncias sólidas, pãozinho torrado é porreiro, mas cappuccino do mar é melhor, porque, com café ou sem café, não descobri, era um creme de marisco e ninguém diz que não a isso. 

Estou mais inclinada a dizer que não ao modo como mo deram para comer, porque a colher de café e a chávena complicam bastante o acto de comer uma sopa, mas isto sou só eu, que sou pobre e não percebo nada dessas coisas finas… Aliás se querem saber o quanto eu e o Mário percebemos de ser sofisticados, esperem só até chegarmos aos talheres de peixe e à selecção de vinhos para os pratos mais pesados (fica para a próxima que eu agora tenho mais que fazer) - Uma verdadeira epopeia dos sabores e da ignorância sobre o que é para comer e o que é só enfeite!

Ass. Mara

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