quarta-feira, 17 de abril de 2013

Gelado de sonhos com recheio de boas memórias gustativas (jantar parte III)


AVISO À NAVEGAÇÃO: 
Por não termos fotos do jantar em si, utilizaremos outras fotos ilustrativas. A legenda das mesmas ficou a cargo do Mário.

Bem sei que já devia ter metido mãos nisto mais cedo, mas a verdade é que as condições meteorológicas em que está envolto o nosso clima têm distendido a minha natural depressão sazonal. A verdade é que a Primavera já chegou, foi até informada que a tinham ido buscar à camioneta às 11 da manhã, ao Equinócio. Contudo, esta estação que agora segue o Inverno mais parece a Inverno-B, com passagem em alguns apeadeiros de sol (eu comecei a escrever isto ainda estava tempo de dilúvio, hoje já termino com sol e manga curta…) 

Agora retomando trabalhos, até porque se avizinham no horizonte outras hercúleas tarefas migratórias, creio termos parado depois das entradas e do cremezinho de camarão (sim, porque quando alguma coisa é boa ou importante em Portugal é costumeiro usar o diminutivo). Então que já temos a digestão feita da primeiras partes desta aventura gastronómica e porque já tinham montes, resmas e paletes de saudades minhas, decidi acabar a história de vez. 

Nesta parte, não há aranhas nem ostras, mas há outras coisas inanimadas com qualidades humanas. Quem me conhece bem, o que não é certamente o caso da maioria das pessoas que vão ler isto, sabe que eu não gosto de fruta na comida (aliás acho que já disse isto e que me ‘tou a repetir, o que é uma coisa que acontece muito a quem não tem uma vida interessante para relatar, por isso, é melhor habituarem-se já), porque é doce, terrivelmente doce quando comparada com o resto do conteúdo do prato. Isto é uma informação relevante porquê perguntam vocês, porque os dois pratos principais tinham fruta lá dentro… Mas adiante, à pausa entre pratos lá voltaram à sala os 3 chefs de serviço, curiosamente limpos para quem estava a cozinhar vestido de branco, e apresentaram o que se seguia: Pêra Bêbeda do Oeste com Codorniz, Robalo com Prosciutto e molho de Sálvia e Folião de carnes (tipo aquela coisa do rodízio brasileiro, mas com um nome mais elaborado. Ora, para nos situarmos ainda melhor, fizeram questão de elucidar os degustadores (nós, os que estávamos a comer) que as pêras vinham da região do Oeste (Torres Vedras e vizinhos, aquela zona onde falta sempre a luz e andam estufas a voar sempre que faz um pouco de mau tempo) e que os robalos tinham sido pescados à linha na zona de Peniche. Infelizmente não denunciaram a proveniência da sálvia, que por momentos acreditei que pudesse ter ascendência divina, mas como agora até já querem proibir essas lojas dos cogumelos é que nunca vou saber a diferença entre umas e outras… 

Esta codorniz anda agora, algures pelo campo, sem uma perna e sem um peito.
Espero que tenha acesso a um serviço de saúde melhor que a grande maioria dos portugueses!

Agora devem estar a pensar como é coisa fina isto de comer codorniz, até porque é um bicho minúsculo e dá imenso trabalho a depenar. É fino, sim. Mais fina ainda quando o único alimento que recebemos relaccionado com a dita avezinha é a perninha e um peitinho, tudo em diminutivo, como manda a regra. Devo desde já esclarecer que as codornizes são complicadas de comer já de si, agora imaginem como comer apenas 20% do animal e ainda desossá-lo com talheres, tudo isto enquanto se tenta manter o ar mais “like a lady” possível. Felizmente não houve comida a voar para fora do prato, mas podia ter havido, foi uma questão de sorte…

Este devia ser, mais ou menos, o aspecto da coisa que se descreve a seguir
antes de ter sido cozinhado. Só falta o Prosciutto

Seguidamente, o prato de peixe, com talheres de aspecto alienígena e com ar apropriado para crianças inquietas não conseguirem cortar os pulsos ou arrancar olhos com eles. Obviamente que ninguém, na sua vida normal, come com facas que não cortam e que mais parecem uma espátula para servir fatias de bolo, por isso, mais uma oração à Santa Bobone e avançámos sem medos. Sem medos como quem diz, porque com o peixe vinha um molho verde com ar de espuma, que devia ser a sálvia, e que tinha um ar meio alucinogénio, ou talvez isso tenha sido apenas a minha sensação, porque fiquei a pensar nas smartshops e em outras coisas que fazem as pessoas rir (dizem, porque eu não sei, mas confio em quem me disse). 

O último prato era tipo isto ... mas na versão de rico.
Que é como quem diz: trazia muito menos comida e custava muito mais dinheiro!

Para terminar, por assim só a falar de comer uma pessoa fica enfartada, veio um prato chamado Folião de carnes, que era como já disse, uma coisa à chimarrão com nome da Linha… Não me interpretem mal, até porque eu gosto bastante de carne grelhada, é só que uma pessoa fica confusa com estes títulos gastronómicos que dão às coisas. Aqui tudo correu bem, até porque não havia grandes surpresas sobre o conteúdo da cerâmica de jantar. Para terminar-terminar, depois de um jantar que durou 3 horas a ser comido, não que houvesse muito para comer, mas porque fizeram imensas pausas pelo meio, veio a sobremesa! Ah pois, esta era a parte que todos queriam saber, seus gulosos! Então eu conto: depois de mais uma introdução lírica sobre a inspiração que levou à confecção dos doces, fomos brindados com gelado de ginjinha (porque todo o álcool do jantar não bastava, foi preciso ainda mais uma referência licorítica – se bem que acho que se estavam a referir ao fruto vermelho e não à bebida, porque todas as ginjas que eu conheço são bagas relativamente pequenas e pode ter sido só um nome carinhoso…) e um quindim com uma bolachinha. Ora, uma pessoa nunca diz que não a um docinho (este é o texto dos diminutivos está visto) ainda mais quando esse docinho gelado sabe a infância! Agora só os fortes vão compreender o meu maravilhamento quando provei aquela bola, era como comer uma nuvem enrolada num pedaço de sonho e cheiro a livros da escola: o gelado sabia a vampirinhos! Roam-se de inveja, porque foi eu que tive a honra e o privilégio de o comer e vou ficar com esta memória linda para sempre! 

Mas não é tudo, assim como acontece naquelas programas que dão conjuntos de prémios às pessoas, ainda faltava a última montra! 

Para terminar-terminar-terminar ainda faltava o digestivo, estoicamente ignorado pelo Mário, o que na minha opinião foi um desperdício, já que nos ofereceram um cálice de vinho do porto, de reserva, friso, de reserva; Uma coisa mesmo à séria que os pobres como eu não consumem e que tem um sabor distinto de todos os outros vinhos do porto que já bebi, ou se calhar isso também foi impressão minha, mas só posso confirmar se tiver acesso a mais garrafas vintage, o que não acontecerá tão depressa e até lá esqueço-me… Também não podia deixar de estar presente a portuguesa bica e outra coisa que me deixou particularmente feliz: trufas de chocolate brigadeiro! Rematadas com grande satisfação foram os pontos finais desta aventura gastronómica pelo paladar dos ricos e famosos, made in Vilamoura!

Ass: Mara


PS: A demora na redacção e publicação do texto são visíveis em dois pontos: quando a Mara fala do mau tempo que foi entretanto substituído pelo seu arqui-inimigo. Passámos, basicamente, de um estado do tempo em que não podíamos andar na rua por um estado do tempo em que ... não podemos andar na rua - mudam apenas as causas! Além disso, repetiu-se a referência à Codorniz. Mas como tem piada, deixei ficar.

Ass: Mário

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