segunda-feira, 21 de julho de 2014

O que é feio é ficar no passeio!*


Hoje, para variar, e a propósito de ter havido no passado dia 15 aquela coisa inédita que é uma manifestação de advogados e muita gente ter aproveitado para cascar ao mesmo tempo em duas "criaturas do demo" (leia-se manifestantes e advogados), vou falar de uma coisa séria.

Como é do conhecimento público, a situação económica e financeira do nosso país não tem sido a mais favorável à felicidade da população em geral. Mas não vou fazer comentário político nem económico, nem tão-pouco social. Não vou enumerar os maus-da-fita nem os coitadinhos, não vou falar de números, nem de percentagens, nem de fracções. Não vou falar de coisas abstratas que pouco interessam e nada esclarecem.
Hoje decidi falar de pessoas, mais concretamente da minha pessoa, e da experiência que é uma manifestação, do ponto de vista de quem só agora se encontra nessas andanças e ainda se sente um pouco como quem está de fora.

Muita gente fala dos manifestantes como aqueles preguiçosos malandros que arranjam mil e uma desculpas para não ir trabalhar, nomeadamente a greve. Ora, diz que a greve é um direito constitucional, mas entre a opinião da Constituição e a opinião pública vai uma grande diferença e pelo meio, já sabem, quem conta um conto acrescenta-lhe um ponto. Além de falar mal dos manifestantes, outra coisa que ainda anda muito na berra é louvar até ao ridículo o empreendedorismo – ou aquela coisa do “bater punho”, se bem que isso na minha altura não significava empreendedorismo, mas adiante…

A questão é a opinião das pessoas é curiosamente bipolar, no caso dos “empreendedores” é ir tentando até dar com o furo da coisa, nenhuma oportunidade para “empreender” é considerada um desperdício de tempo, “empreendedores” têm esta característica que todos muito aclamam que é a não resignação. Viva os empreendedores! No caso dos manifestantes a não resignação é pecado capital e cada nova manifestação mais não serve do que para incomodar os outros. Ao manifestante não é permitido acreditar que na próxima é que vai ser, aos manifestantes é mandado baixar as orelhas. Abaixo os manifestantes! Em conclusão, isto leva-me a crer que os manifestantes deviam todos passar a levar faixas a dizer “um cidadão é um empreendedor em potencial” e “um desempregado não tem meios para ser empreendedor”.

Exemplo de cartazes claramente desactualizados

Mas a verdade é que empreendedores e manifestantes não passam de conceitos abstratos e as manifestações são feitas por pessoas e não por conceitos abstratos. E está aqui o que vocês não conhecem e só daqueles que estiveram de fora e passam a estar dentro é que entendem:
- As pessoas que vão às manifestações não vão porque é fácil. Ir a uma manifestação implica várias deslocações, acordar cedo, preparar almoço e lanche e, nalguns casos, até jantar para comer pelo caminho. Ir a uma manifestação implica andar a pé horas seguidas e ficar de pé outras tantas horas, debaixo de sol ou chuva, com frio ou calor. E é cada vez menos fácil à medida que uma pessoa fica mais velha, mais frágil e mais doente.
- As pessoas não vão às manifestações porque é bonito. Ir a uma manifestação implica fazer uma viagem em autocarro. A maior parte das vezes o autocarro mais rasca que a autarquia disponibiliza ou o melhor que os organizadores podem pagar, que é também o mais rasca que a transportadora tem. Implica fazer uma viagem pela auto-estrada e só parar em estações de serviço, fazendo todo o percurso de várias horas sem nada de interessante para ver. Ir a uma manifestação implica que se vá à capital do país e não se possa disfrutar de nada do que esta oferece, o mais próximo de actividade cultural que se pode arranjar é ver ao longe e por fora o Mosteiro do Jerónimos em Belém ou ver também ao longe e por fora a Assembleia da República (que para quem não sabe é um monumentos histórico e classificado).
- As pessoas não vão às manifestações porque é barato. Deste mito eu gosto particularmente, porque isso de “os sindicatos é que pagam” é uma aldrabice tão grande como aquilo de “os contribuintes é que estão a pagar”. Em primeiro lugar, sindicatos são conceitos abstratos, como os manifestantes e os empreendedores. Ir a uma manifestação implica gastar dinheiro na viagem, porque quem desconta para o sindicato é normalmente aquele bicho horrível do manifestante. Ou seja, pelo menos para essa pessoa há um custo inerente. Mas atenção, esse desconto não cobre a actividade manifestação na sua totalidade, porque esse desconto e porventura os apoios do estado, serve para garantir formação na área laboral, muitas vezes só fornecida pelo sindicato, serve para garantir apoio jurídico aos sindicalizados e serve para cobrir os gastos funcionais dos muitos processos que é o sindicato que patrocina, serve para garantir os gastos funcionais das negociações com o Estado ou com os patrões, serve, no limite, para aproveitar a todos os trabalhadores e não só aos sindicalizados. Ir a uma manifestação sai caro e são as pessoas que vão à manifestação que pagam esses custos, fazendo contribuições especiais à parte para cobrir os gastos.
- As pessoas não vão às manifestações porque não têm nada para fazer. Ir a uma manifestação implica alterar toda a agenda de uma família, onde estava um dia de praia ou descanso, passa a estar uma viagem cansativa e dispendiosa. Onde estava um dia de trabalho, passa a estar um dia de greve que não é pago.

Agora podem manter a vossa opinião sobre a validade ou utilidade das manifestações, mas lembrem-se que essa “praga de manifestantes” que, de quando em vez, ataca Lisboa está a gastar o seu tempo e o seu dinheiro, e não o tempo e o dinheiro dos outros, está a prejudicar-se a si própria no imediato, para que no futuro todos, e não só eles, possam beneficiar. E quem sabe se um dia, quando estes também acharem o furo à coisa não vão depois ouvir “ainda bem que não desistiram, a próxima foi de facto a derradeira”. Por isso já sabem, não se deixem enganar e se não querem ajudar, porque isso é demasiado aborrecido, ao menos não empatem.


E isto aprendi eu depois de ir a manifestações a 350 km de distância, a sair de casa às 7 da manhã, a chegar às 11 da noite e ainda ir trabalhar no dia a seguir. E só quem vai a uma manifestação é que percebe que não é fácil, nem bonito, muito menos barato.


*Palavras de um senhor manifestante, no dia 10: "o que é feio, o que é feio, é ficar no passeio!"


Mara Beldroegas

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